sábado, 29 de setembro de 2012

Bourdieu para bajuladores graciosos segundo Carlos Cox



O ARTIGO ABAIXO FOI PUBLICADO NO JORNAL GAZETA DO OESTE DE MOSSORÓ, coluna de Fato e de Direito:



BAJULAÇÕES GRACIOSAS, PODER SIMBÓLICO, JURIDIQUÊS E OUTRAS TRANQUEIRAS DO MUNDO DAS LETRAS JURÍDICAS


Carlos Henrique Harper COX
Defensor Público no Pará
Falando do escrever praticado no mundo jurídico, duas questões sempre me incomodaram bastante: as expressões subservientes com que muitos profissionais jurídicos se reportam aos magistrados e a utilização de um juridiquês que, não raro, é muito mais farofa do que charque.
Já tentei recorrer ao autor de "A economia das trocas simbólicas" e de "O poder simbólico", o sociólogo francês Pierre Bourdieu, para compreender o motivo de não raramente ler em petições expressões como "venho à augusta presença de Vossa Excelência requerer...", "venho, mui respeitosamente...", "o suplicante pleiteia...", "data venia, a honorável decisão merece reparo porque...", "excelentíssimo senhor doutor juiz...", e por aí vão-se os parnasianismos acriticamente repetidos pelas facilidades do ctrl+c/ctrl+v.
Data venia, peço eu, o respeito pela instituição não está nessas expressões bajulatórias, nos elogios graciosos e gratuitos - que particularmente a mim sempre causaram grande ojeriza -, mas na boa-fé objetiva da parte, na ética e na lealdade processual do profissional que atua no processo. O respeito não está em um terno que se insiste em ser trajado em rincões tupiniquins que atingem os 40º centígrados, ou mesmo nas becas que lembram as mortalhas do carnaval de Olinda, o respeito está no compromisso dos atores judiciais para a rápida, transparente o objetiva solução do problema do cidadão.
A verdade é que essas expressões subservientes, as roupas bem enfronhadas, as colunas romanas, o mármore, o granito, "as ametistas e os florões e as pratas" dos superlativos dos egrégios tribunais, que vez por outra freqüentam as manchetes com escândalos de corrupção, não passam de um simbolismo dominatório, milenar, arraigado, silencioso e cruel, que nos ajuda a reproduzir e manter um statu quo que em nada espelha um pretenso Estado, muito menos democrático, muito menos de Direito.
Abaixo as quinquilharias gratuitamente lisonjeiras, o simbolismo que perpetua uma subserviência atentatória ao Estado Democrático de Direito e que alimenta uma magistratura alienada, vetusta e decadente. A boa notícia é que, nos últimos tempos, os magistrados cada vez mais entendem que são meros servidores públicos, com mister específico, assim como todo bom ou mau brasileiro. 
Portanto, vale sempre lembrar o padre Vieira, que, em lição ainda atual, já orientava a postura a ser tomada pelo postulante perante o magistrado: "Não hei de pedir pedindo, senão protestando e argumentando; pois essa é a licença e liberdade de quem não pede favor, senão justiça".
A outra pulga que sempre me incomodou nas letras jurídicas foi o "malafamado", por assim dizer, juridiquês.
Ora, uma coisa é a utilização de expressões técnicas que integram um ramo específico da Ciência e que, nem sempre, podem ser apreendidas em sua totalidade por quem desconhece esse ou aquele ramo do conhecimento, o que é normal; outra coisa é pinçar as brotuejas das costas do velho Aurélio em busca do "cunho vernáculo de um vocábulo" que ninguém utiliza mais, que não comunica, que não ajuda a se comunicar e a se fazer entender. É certo que a água embaçada não faz o poço ficar profundo, como parecem esquecer alguns nobres, augustos, colendos, eméritos e atilados colegas.
Escrever bem não é escrever difícil, basta ler Rubem Braga, que fazia troça do "Enriqueça seu vocabulário", das Seleções Reader´s Digest, e nos desafiava a encher de significado as palavras que já conhecíamos, ao invés de aprender qual o nome do som produzido por uma lhama. Da mesma forma, escrever bem, na área jurídica, não é procurar sinônimos obsoletos ou latinórios inespecíficos, escrever bem, o que digo sem nenhuma pretensão professoral, claro, é se fazer entender com o material do cotidiano, da padaria, da praça, do futebol.
É possível, sem precisar recorrer ao completo léxico camoniano, mas utilizando o mero vocabulário do tão querido homem-médio, construir textos argumentativamente densos, plasticamente belos, que comuniquem e que, por isso, atinjam sua função: se fazer entender. Como fazer isso? A resposta é a mesma dada pelo poeta espanhol ao seu discípulo, quando indagado sobre a forma como ele deveria fazer seus versos: "Hay que poner talento!" - dizia o poeta.
De mais a mais, a suplica que fica é para nos façamos entender, com a venia dos que querem entender e com a dignidade de quem protesta pela aplicação do consenso formal e transitório que chamamos de lei, sem necessitar curvar-se com medo da augusta vara de um preboste.

FONTE: GAZETA DO OESTE, Edição 12/04/2009



                                         

NÃO SERIA POSSÍVEL DIZER:

O AMOR PRÓPRIO DO OUTRO É O AMOR DE TODOS OS BAJULADORES

2 comentários:

Nívea Sabino Escritora disse...

Ri de mim mesma aqui sozinha ao ler a reportagem. Desde os tempos de estagio na AJ, isso 'persecula seculorum', que escrevo nas petições " Excelentíssimo Senhor Doutor Juiz", hahaha Agora que pesou o quanto tenho sido juridicamente brega em todos os pedidos, em todas as áreas e esferas e sem me dar conta disso. Ótimo artigo, adorei. Sem falar no quesito terno e beca, pois aconteceu esses dias comigo de um colega me acompanhar em uma audiência sem estar paramentado mas em manga de camisa e o Excelentíssimo Senhor Doutor Juiz pediu que ele se dirigisse à OAB para pegar uma beca. Claro que meu colega não retornou a sala de audiência que mais parecia um purgatório...

fabio ataide disse...

Republiquei para compartilhar seus comentários e o artigo! Já vi gente deixando de fazer audiência por causa de gravata... É a justiça do nó gordio