quinta-feira, 27 de novembro de 2008

Martin Claret versus Martins Fontes

Há algum tempo li em Veja uma notícia que desabonava a autenticidade das traduções realizadas pela editora Martin Claret. Na academia, os estudantes e professores também têm dúvidas a respeito da "legitimidade" desses textos clássicos publicados pelo selo da Martin Claret. Eu próprio também tenho minhas dúvidas e fui tirá-las, fazendo uma comparação com dois textos de Hobbes.

Escolhi a obra "Do Cidadão", uma publicada pela Martin Claret e outra publicada pela renomada casa editorial Martins Fontes. A primeiro custou R$ 10,00 e a segunda cerca de quatro ou cinco vezes mais do que a outra. Comparei alguns trechos das duas obras, tendo em alguns casos um trabalho para encontrar os mesmos textos nas duas edições.

Em resumo, verifiquei que há diferenças entre as traduções e, pelo que percebi, os textos da Claret têm uma preocupação em tornar o texto traduzido mais acessível a um leitor principiante, ao contrário dos textos da Martins Fontes.

Pelo que pude concluir, vou seguir preferindo os textos da Martins Fontes, mas não chego ao ponto de desqualificar para o estudante principiante – com pouco tempo e às vezes com menos dinheiro ainda – a leitura dos livros da Claret, que são bem mais baratos que os da outra editora.

Se é pra ler a baixo custo bons livros dos grandes autores e falta capital financeiro para isso, recomendo a leitura incipiente da Claret. Leia todos os clássicos! Leiam e leiam.... Da Claret, que sejam lidos o que for pra ler, mas leiam Hobbes, Stuart Mill, Platão, Aristóteles, Montesquieu, Maquiavel, Durkheim, Baltasar Gracián ("A Arte da Prudência"), Kant e tantos outros.

É preferível ler a não ler ou a ler por meio de cópias pirateadas. Leiam e nada impede que no futuro voltem a ler os clássicos por uma casa editoral mais preocupado com que o foi escrito.

No quadro abaixo segue um resumo desta comparação, de um lado o texto da Martin Claret e de outro o mesmo trecho traduzido pela Martins Fontes.


 


 

QUADRO COMPARATICO


 

HOBBES, Thomas. "Do Cidadão". Trad. Transmar Costa Lima. São Paulo: Martin Claret, 2004. 

HOBBES, Thomas. "Do Cidadão". 3ª ed., trad. Renato Janine Ribeiro. São Paulo: Martins Fontes, 2002. 

72: Thomas Hobbes (1588–1679) deixa evidente que decorrem dos testamentos bíblicos a origem dos preceitos de imparcialidade judicial (Ecl. 20:29); a existência de pelo menos duas testemunhas para condenar (Dt. 17:6); a vedação da justiça privada (Co. 6:5); a igualdade (Is. 40:4); o respeito pela propriedade (Sl. 15:1; Pr. 6:1-2) etc

78

165

191

C14/8: 189: É desta maneira que o medo coletivo aparece como estopim de uma legislação penal simbólica e dissipadora do medo. Para o filósofo, de nada adianta uma lei conferir direitos se não existisse "o medo da punição"; afinal, "se toda lei for infringida sem o justo castigo, torna-se inútil"

222 "disso também podemos concluir que toda lei civil tenha anexa uma penalidade, quer explícita, quer implicitamente. No segundo caso, porque, quando o castigo não estiver definido nem por escrito, nem pelo exemplo de ninguém que já tenha sofrido punição por transgredir a lei, então se entende que a pena é arbitrária, isto é, que depende da vontade do legislador"...pois é inútila toda lei que possa ser violada sem castigo" 222

C13/17, p. 182

212 

C14/§18, p. 196 "sempre que surge uma esperança de ganho e de impunidade, não há consciência de pactos ou compromissos que os demova da transgressão"

"há, porém, outros que negligenciam as leis, e a quem, toda vez que sentem alguma esperança de ganho impune, nem a lembrança de terem firmado um contrato nem o escrúpulo de terem dado sua palavra impede de violá-los" 230

Os capitulos estao sem títulos 

Os capitulos estao com títulos 

C15/5,205

242

C17/28, p. 268 "Se os homens quando dizem que uma coisa está toda em um lugar, querem exprimir por consenso comum que entendem nada haver dessa coisa noutro lugar, então é falso uma mesma coisa estar toda em vários lugares ao mesmo tempo. Essa verdade, portanto, depende do consenso dos homens, e pela mesma razão, o mesmo se dá em todas as demais questões do direito e da filosofia" ("Do Cidadão". Trad. Transmar Costa Lima. São Paulo: Martin Claret, 2004, p. 268)

326 A traducao é diferente

C18/4, 274 Thomas Hobbes (1588 -1679) discorre sobre a manipulação e construção dos sentidos das palavras: "Acontece às vezes que as palavras, embora tenham um significado certo e definido por convenção, contudo, usadas vulgarmente com fins particulares, como ornamento ou falácia, são de tal modo desviadas do próprio sentido" (inicia UM §)

234 ...Mas acontece às vezes que, embora as palavras tenham por sua constituição um significado certo e definido, venham elas, porém, porque o vulgo as utiliza quer para adorno quer para engano, a ser tão arrancadas de suas significações próprias que se torne dificílimo recordar as concepções pelas quais foram inicialmente impostas às coisas..."

ESTÁ CONTINUANDO UM §. 


 

2 comentários:

larissa disse...

Só pra reforçar o comentário, infelizmente faço parte do grupo dos estudadntes principiantes que por falta de recursos e oportunidades tem que se contentar com essas traduções de edições baratas que não me ajudam muito mas que pelo menos tiram da completa ignorância.

Fábio Ataíde disse...

Larissa,
O importante é conhecer a idéia do texto, mesmo pela claret. Depois podemos voltar a traduções mais sérias. abraços